Solo


Mais um dia qualquer na vida de um inútil

Uma xícara em um gole – Quanto mais amargo melhor o café de manhã. O carro pega no tranco - Sorte estacionar para baixo na ladeira. Durante o trânsito repassa todo o discurso – Boas chances para canastrões em entrevistas. Chega em cima da hora – Simpatia e desculpas quando juntas ninguém resiste. A secretária avisa que J. Pinto Fernandes ainda não chegou. Tudo bem (ainda bem) meu bem!



Escrito por F.J. às 03h27
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Qual o Destino do Projétil? 1

    

     Vinte minutos de espera e o transito não andava. Somente as motos passavam pelos corredores que as filas de automóveis deixavam. Avenida grande. Quatro pistas completamente lotadas. Engarrafamento a perder de vista. Não dava para perceber o começo nem o fim. Noite quente.

Para Raul aquilo não parecia incomodar - vidros fechados, ar condicionado e cool jazz no último volume.

Esses momentos no trânsito de São Paulo acalmavam Raul, por mais que isso possa parecer impossível. Coisa de louco? Não. Raul sempre pareceu muito normal e ponderado. Saía todos os dias do escritório onde era muito querido e respeitado por seus colegas, descia até a garagem, dizia um até logo ao manobrista e partia feliz às ruas de São Paulo. Era o momento de maior prazer no dia. Não que seu emprego não agradasse. Pelo contrário, era advogado por vocação. Embora, é verdade, escolheu a especialidade por conveniência. Seu sonho era ser criminalista, mas se tornou tributarista. Achou mais sensato e concordou com o pai em trabalhar no escritório que começou com o avô em mil novecentos e quarenta e três. Mantinha a vida que achava que queria e se julgava feliz. Há dois anos deu entrada em um belo apartamento em Moema onde morava só. Relaxava durante o congestionamento e não reclamava dessa rotina – principal reclamação dos paulistanos que possuem carros e de muitos que não possuem. 

Sozinho com ele mesmo Raul refletia sobre suas ações, sobre suas vontades e esperanças. Não pensava no escritório. Pensava na família que queria constituir, na companheira para este sonho, nas viagens das próximas férias. Maquinava, projetava tudo àquilo que sonhava realizar com o fruto de seu trabalho. Para Raul o trabalho servia para ter condições de realizar sonhos.

Mais de quarenta minutos já tinha rodado no relógio. Raul continuava tranqüilo. Fantasiava como deitaria na rede da varanda da casa da praia que iria alugar no próximo verão. E só as motocicletas rodavam, uma atrás da outra, entre as filas de automóveis parados. Apesar de voarem ao lado da janela de Raul não atrapalhavam seus planos.

No porta-luvas sempre guardava algumas guloseimas. Garantia mais prazer neste pessoal ritual diário. Encontrou uma barra de chocolate ao leite. Como a fila não andava, aproveitou, soltou o cinto de segurança e fechou os olhos. Esqueceu do que havia a sua volta. Era como se fosse transportado para a rede, na varanda da casinha da praia deserta.

Quando acabou de degustar o último pedaço de chocolate abriu os olhos e ficou surpreso. Além da fila de carros, aquilo que anteriormente eram corredores se transformou em filas de motocicletas. Um moto-boy insolente apoiava o pé na roda dianteira de seu automóvel. Calmamente amassou a embalagem do chocolate, jogou em um saquinho plástico que mantinha no console do veículo e decidiu esperar para ver o quanto duraria aquela folga.



Escrito por F.J. às 04h40
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Qual o Destino do Projétil? 2

      

     

O motoqueiro soerguia-se com um pé no pedal e outro na roda e gesticulava para frente. Voltava a sentar, virava para trás e dizia alguma coisa para outro moto-boy que também estendia os braços. Raul sem se alterar, diminuiu o volume do som, abriu a janela e surgiu um emaranhado de sons que formava um barulho disforme: Berros e buzinas, tudo misturado.

Educadamente Raul chamou o motoqueiro que continuava apoiando o pé na roda. O rapaz não ouviu. Tentou pedir para o de trás, que estava bem ao lado de sua janela, mas este também não deu atenção. Abrir a porta era impossível, não havia espaço. Fez que ia colocar o braço para fora, mas retrocedeu. Fixou novamente o olhar no motoqueiro. Esperou durante alguns minutos. O rapaz nem se deu conta. Buzinou uma vez. De nada serviu. Buzinou mais e mais. Desistiu - praticamente todos os motoristas buzinavam. A fila andou um pouquinho. Raul se apressou em acelerar para assustar o rapaz. Mas, o moto-boy foi mais rápido e tirou o pé um instante antes. Novamente a fila estagnou. E de novo o motoqueiro apoiou o pé na roda dianteira do carro. Raul subiu o vidro, mas não tirava mais os olhos do rapaz. Pensou em virar o volante pra ver se ele se tocava, mas isso também não surtiria o efeito que desejava.

Raul curtia a irritação dentro de si. Tentava aparentar calma, mas por dentro fervia. Pensou em mil maneiras de dar um corretivo no rapaz: Em como pisaria na sua garganta, ou como apontaria o dedo para o seu nariz, pensou em cada palavra que usaria enquanto o faria ajoelhar. Sentimentos que o ajudaram a sorrir cordialmente quando seu olhar cruzou com o do moto-boy.

Quando o rapaz desmontou da moto e andou uns vinte metros para frente Raul achou que o problema estava acabado. Voltou a procurar alguma coisa pra mastigar no porta-luvas e fez algumas respirações controladas. Depois de alguns minutos volta o moto-boy, e ao invés de montar em sua moto preferiu encostar-se no capô do carro. Acenou pedindo permissão e ficou por ali de braços cruzados.

Raul sempre foi um exímio atirador. Em sua casa mantinha uma pistola que ganhou de presente do avô, na fazenda gostava de caçar com uma espingarda e com ele sempre levava um revólver trinta e oito, que apesar de antigo, era o que mais gostava. Deixava escondido embaixo do banco do passageiro. Uma vez por semana ia ao clube de tiro. Depois do futebol de quinta este era o seu esporte preferido. Sempre foi muito prudente. Não falava disso com ninguém e nunca usou a arma contra outra pessoa. Mesmo quando sofreu um seqüestro relâmpago e achou que poderia reagir preferiu obedecer para que o assalto terminasse o mais rápido possível.

Então Raul teve uma idéia. Delicadamente pegou o trinta e oito embaixo do banco, retirou-o do coldre, acoplou o silenciador e traçou seu plano: Mirar para que o tiro pegasse de raspão no capacete. Isto não mataria, mas desequilibraria o motoqueiro que iria ficar assustado e com certeza - refletiu - nunca mais faria aquilo. Abriu uma fresta do vidro fumê, carregou a arma com apenas uma bala, girou o tambor, mirou e apertou o gatilho. Não houve disparo. Mais uma vez e nada. Na terceira foi!... O motoqueiro continuou em pé e ainda acendeu um cigarro. Raul fechou a janela, abaixou a cabeça e guardou a arma rapidamente. Ninguém percebeu nada.

Raul ficou paralisado, o olhar fixo mirando o rapaz que fumava encostado em seu carro. As mãos suadas gelavam. Abriu a janela e olhou em volta. O moto-boy gentilmente ofereceu um cigarro e começou a puxar papo. Raul aceitou e agradeceu também o isqueiro. Trocou algumas palavras e descobriu que o motoqueiro estava atrasado para o próprio noivado. Após alguns minutos o trânsito fluiu sem problemas.



Escrito por F.J. às 04h34
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]




Páginas em Branco

Um dia, como todo dia, na caminhada que faço da saída do trabalho até meu carro eu percebi o livro Carta ao Pai de Franz Kafka exposto para venda numa estante promocional na frente de uma banca de jornal. Fazia parte de uma coleção de livros de bolso. Um livrinho de capa roxa, com uma foto do autor e o seu nome escrito grande, maior que o título da obra - KAFKA. O nome é que me chamou atenção. Parei e peguei o livro. Fiquei interessado em comprar, já que eu tinha lido a Carta ao Pai há muito tempo de um livro emprestado de um amigo. Não sei dizer se gostei, não sei dizer se é preciso gostar de um livro como este. O que sei é que ele deve ser lido – isto é o que importa.

Com o livro na mão, fui até o rapaz da banca. Ele conversava com uma mulher. Fiquei esperando e pude notar que eles já se conheciam e que ela não estava ali para levar nem um maço de cigarros. Ela contava sobre um cachorro e um gato. Interrompi a conversa, comprei o livro e continuei a caminhada.

Li o prefácio enquanto andava. Tomava cuidado para não tropeçar, para não esbarrar em alguém, para não ser atropelado. Cheguei ao carro, logo não dei partida, estava entretido com as explicações sobre a tradução. Acabada as receitas para uma melhor leitura, resolvi começar a Carta em casa. Liguei o carro e parti.

Depois de uma hora de trânsito, faróis, buzinas, pedintes e sirenes cheguei em casa para o jantar. Comi, acendi um cigarro e comecei a ler a Carta. É uma tentativa de acerto de contas com o Pai, com a Lei, o Soberano, o Poder. Livro angustiado e angustiante. Não sei se era boa idéia lê-lo após a refeição, talvez fosse melhor de estômago vazio. Mas na hora eu não pensava nisso, os pensamentos passavam rasantes pela minha cabeça, pensava em fatos ocorridos, em meu próprio pai, num professor que tive, no meu avô, em meu irmão mais novo, em minha namorada, em minhas vontades. Todas as minhas relações ficavam claras e logo se perdiam. Sentimentos confusos causados já nas primeiras páginas.

Quando estava próximo do meio do livro, uns quatro cigarros depois, uma surpresa: duas páginas em branco. Fui para a próxima, esperava continuar. Mas não havia continuação. Ou melhor, a carta continuava como se as páginas em branco estivessem escritas. Era um salto, um vazio, um erro na impressão que deixou duas páginas de fora. Ri. Mesmo sabendo que se tratava de um erro de impressão parecia que era de propósito. Parei de ler, não tinha cabimento continuar. Como pode duas páginas em branco? Logo num livro do Kafka! Fiquei desconcertado, a brincadeira se interrompeu sem vontade. Lamentei, pois no outro dia teria que voltar à banca, explicar o que havia ocorrido e trocar o livro. É o que tem que ser feito nessas ocasiões.

No outro dia não teve nenhum problema. Mostrei as páginas em branco para o rapaz da banca e ele falou que eu podia pegar outro. Mas um sentimento estranho tomou conta de mim quando fui devolver o livro errado para o rapaz. Eu quis ficar com o livro! Pedi para ficar. O rapaz disse que não, pois precisava mostrar para o pessoal da editora e sorriu achando estranha a minha pergunta. Resolvi não insistir, já que o normal é isso mesmo. Qual a razão de ficar com um livro que não pode ser corretamente lido? E fui embora com o livro certo. Fui embora, mas um certo incômodo me acompanhou. Um certo tipo de arrependimento sem razão. Uma culpa por duas páginas em branco que não dependiam de mim. Um certo...



Escrito por F.J. às 13h59
[   ] [ envie esta mensagem ] [ ]


[ página principal ] [ ver mensagens anteriores ]


 
Histórico
Outros sites
  www.role.art.br
  Blog da Zilda
  Luisa Furman
  record-breaking
  mais malagueta
  BOL - E-mail grátis
  UOL - O melhor conteúdo
  nadalight
  renatasim
  tkgeo
Votação
  Dê uma nota para meu blog